Sinopse
Primeira Edição.
Livro de poesia em francês. Inclui guache inédito de Vieira da Silva.
«Perguntam-me, com surpresa ou velada ironia, que razão me levou a escrever este livro em francês. E eu não sei que dizer, pensando embora em mil respostas possíveis. Que este livro só poderia existir como foi escrito. Que seria mais lícito perguntarem-me porque o escrevi do que porque o escrevi assim. Que o que me liga à cultura francesa desde a infância havia, tarde ou cedo, de me fazer cair numa aventura destas. Que, no fundo, somos livres de tentar o que nos parecer… Subterfúgios. A uma pergunta igualmente embaraçosa sobre a Memória Dum Pintor Desconhecido respondi com o que ali confessara: ‘Sei lá o que é preciso ou o que é ser preciso! / … / Só sei que preciso / respirar.’ E contei que, um dia, inesperadamente, numa paragem de autocarro, ouvi dizer em mim: ‘Uma palavra um baço aroma / fresco rumor de chuva que não há’, qualquer coisa que se embrulhava, me fugia, regressava, se alterava, e de que nasceu um livro inteiro que nunca pensara escrever. Poderei dizer o mesmo sobre Le feu qui dort. Inesperadamente também, numa tarde terrivelmente deserta, reparei que dizia sem saber porquê: ‘O toi ma clef O toi mon ombre et ma clairière.’ E, pouco depois: ‘Une pluie de taureaux est tombée sur la ville / Comme les autres peu à peu j’ai accepté mon sort’… Respirava, sem poder nem querer preocupar-me com a língua em que o fazia. Durante meses só vivi para esse lume enganosamente extinto que vinha à superfície — promessa e desafio — da maneira mais imprevista e tão obsessiva que, enquanto durou, me não permitiu outra espécie de trabalho nem escrever uma linha em português.
Concluído o livro, deveria escondê-lo, quer dizer: esconder-me? Teremos o direito de esconder-nos?»