Sinopse
«Caso excepcional no nosso meio literário, uma obra de investigação e de interpretação histórica atinge a sua 4 edição menos de um ano depois de aparecer nas livrarias. As razões deste êxito não necessitam de ser explicitadas, porque há milhares de leitores que as conhecem. Há neste livro uma visão nova uma visão desapaixonada, e todavia spaϊκο nante acerca de um dos temas mais debatidos da História Portuguesa, e que ainda agora se presta ao debate de investigadores, quer nacionais, quer estrangeiros.
Com efeito, poucos assuntos da história portuguesa têm sido tão apaixonadamente discutidos como o Santo Ofício da Inquisição, estabelecido no nosso país por diligência zelosa de D. João III e extinto pelo Marquês de Pombal. Como é natural, a crítica desta instituição principia a ser feita por representantes dos seus principais vítimas, os Cristãos-Novos; integra-se no complicado e instável jogo de forças sociais relacionado com e Restauração de 1640; avoluma-se com a intervenção dos Estrangeirados progressistas do século XVIII; abrange toda a historiografia liberal, com destaque para a História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal de Herculano, cujo prólogo extrai do seu conteúdo uma lição ainda hoje plenamente actual; deu origem a estudos capitais de Lúcio de Azevedo e António Baião; provocou mesmo tentativas de reabilitação total ou parcial do Santo Ofício, que se não extinguiram; e, apesar do silêncio pudibundo de muitos, volta hoje à ordem do dia, com as investigações e teses de Révah, J. C. Baroja e outros.
Mas até agora a polémica e a investigação giravam quase só em torno dos malefícios culturais, sociais, económicos (ou, segundo alguns, dos benefícios, ou de certos benefícios…) do famigerado tribunal, ou em torno do farisaísmo dos seus instituidores e ainda dos seus métodos ou estilos. Ora. por muito impressionantes que sejam estes aspectos (e o livro presente esclarece todos os seus processos, alguns ainda pouco indagados ou ponderados, mostrando até onde, sob a linguagem mais seráfica, se pode ir em negação da humanidade mais elementar) a verdade é que qualquer instituição. qualquer fenômeno histórico, mesmo uma grande Inumanidade. carece, pelo menos em princípio, de explicação, e só depois de socialmente explicada se supera eficazmente. Os juízos condenatórios, as reacções da mala justa repulsa pouco valem se estiverem cegos para a dinâmica objectiva dos factos. E, assim, é certo que o veredicto herculeniena contra D. João 111 nos faz ainda vibrar de indignação. Mas muito mais importante do que indignarmo-nos é descobrir como foi possível toda essa ferocidade a frio, praticada em nome de uma religião de caridade, por homens, talvez na maior parte dos casos. potencialmente tho bons ou tão maus como nós – todo esse pavor que já conhecemos (ou devemos conhecer) através das alegações levadas até junto de Santa Sé, doe testemunhos do Padre António Vieira, de tudo quanto foi irrefutavelmente apurado por Herculano, António Baião, etc., e que o presente volume luminosamente resume, arruma, completa, Interpreta Sobre esta questão fundamental, e ainda hoje em aberto. do porquê, traz António José Saraiva uma tese da maior importância. Não a sumariemos, para não a deformar na sua clara e todavia complexa estrutura. A interpretação proposta representa uma mutação decisiva na problemática da história do Santo Ofício. Dobra-se a última página deste livro tão emocionante e o nosso respeito pelas melhores potencialidades do Homem fica, todavia, de pé. Os homens (ou certos, muitos homens) foram, de facto, assim, são-no com certeza, ainda hoje, em muitas partes do mundo. Mas, se ainda nem todo o mal se explica e remova, é pelo menos evidente que a Inquisição se pode explicar de um modo plausível: era uma arma de defesa, não da religião, mas de um grupo social ameaçado, arma que, a certa altura, já se movia segundo vias próprias e incontroláveis. Os factores de toda a inumanidade historicamente consumada podem racionalmente objetivar-se. Podem, desde já, combater-se. Poderão, cada vez mais, neutralizar-se. E o que importa é isso, e não constituirmo-nos em júri de um julgamento final sobre o que se fez. não agora, mas há séculos. O juízo final não é da nossa competência. Da nossa competência é o que se faz hoje, e o que virá a fazer-se amanhã. Este livro objetivamente sereno é, também em tal sentido, uma grande lição.» Oscar Lopes