Sinopse
Volume 11, número especial comemoratio do 4.º centenário da Publicação dos «Colóquios dos Simples»
“A vida de Garcia de Orta e a sua criação cientifica são tema de fecunda meditação para quantos se consagram à investigação das coisas e gentes tropicais, particularmente em Portugal. Dai que nos pareça haver cabimento, mesmo em breve anotação introdutória, para sublinhar algumas facetas em nosso juízo mais expressivas daquela valia.
Nascido em Castelo de Vide no alvorecer do século, Garcia de Orta cursou Artes, Filosofia e Medicina em Salamanca e Alcalá de Henares e, regressado ao País aos vinte e poucos anos de idade, exerceu clinica e obteve em Lisboa a sua carta de físico, supondo-se que o haja sido da corte de D. João III. O desejo de conquistar a cátedra universitária acarretou-lhe algumas contrariedades, até que, após vários concursos, a obteve. Não chegou, porém, a ocupá-la por quatro anos, porque antes de os completar se decidiu a partir para a India na comitiva do capitão-mor Martim Afonso de Sousa, em Março de 1534. Esse era o caminho da sua vocação, como o resto da vida e um lugar na História da Ciência haviam de demonstrar.
[…]
Não é maravilha que, quando os Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da India viram a luz do dia na cidade de Goa, aos 10 de Abril de 1563, Garcia de Orta entrasse, com essa obra única e seu único livro, na galeria tão cobiçada dos grandes pioneiros do conhecimento humano.
Livro notabilissimo, não tanto por ser vasto e magnifico repositório de conhecimentos inéditos, como pelo espírito novo que o informou e fez dele obra precursora por excelência na metodologia das ciências humanas e da natureza, os Colóquios ficariam também como um dos primeiros e mais eloquentes padrões do espírito de síntese cultural que tão fortemente havia de caracterizar a presença portuguesa nos trópicos. Garcia de Orta consumara neles a primeira tentativa sucedida de integração, no património universal da Ciência moderna, de larguíssimo contributo do saber empírico tradicional oriundo das velhas civilizações do Oriente, seleccionado e valorizado pelo novissimo espirito critico que iria facultar ao pensamento ocidental o instrumento basilar da era cientifica, cujos alvores então despontavam no horizonte da História. Nova et nove…” in Pórtico