Sinopse
“O génio (…) é também produto das circunstâncias. Neste sentido, está de parabéns o nosso País, está de parabéns a comunidade académica, está de parabéns o público em geral por terem criado um espaço para a revelação do génio intelectual que produziu esta obra. Está de parabéns o nosso País pela sua complexidade e criatividade, sem as quais Carlos Serra não se teria sentido suficientemente desafiado. O diabo dá trabalho ao ocioso. Está de parabéns a comunidade académica moçambicana por ter virado os olhos ao óbvio mas, ao mesmo tempo, participado na criação duma tradição de investigação e de um discurso intelectual. A comunidade académica constitui um viveiro de valor inestimável para obras da qualidade de Combates pela mentalidade sociológica. É claro, Carlos Serra não se limita a repetir o que o nosso discurso intelectual produz. Repetir o que os outros dizem não exige mais do que inteligência moderada. Questionar o que os outros dizem é obra de génio. Combates pela mentalidade sociológica afirma a sua classe, e a do seu autor, com a forma corajosa como aceita o ceptro que o debate intelectual moçambicano lança. É frontal no seu assalto ao conluio que se abateu sobre Moçambique nos meados da década de oitenta à volta da questão da tradição. Remando de forma destemida contra a maré da evocação dum sentido de cultura tradicional que recusa a transformação à sociedade moçambicana Carlos Serra questiona os pressupostos epistemológicos por detrás desse conluio. Nesse exercício, a antropologia não faz boa figura.
Mas não é a antropologia, em si, que se sai mal. É, sim, uma forma bastante perniciosa de fazer antropologia, o uso e abuso do poder de nomeação e atribuição, que cai na potente mira de que se serve Carlos Serra – sobretudo nos seus estudos sobre “mitos e realidades da etnicidade” e ainda em “para um novo paradigma de etnicidade” (…) – para observar. A antropologia, bem feita, é também uma benção para este País. Finalmente, está de parabéns o público leitor por ter esgotado a primeira edição e tornado uma reedição – e um prefácio! – necessários. Demonstra sede de conhecimento. O conhecimento, dizia Sócrates, é um bem, a ignorância um mal. Que melhor forma de acesso ao conhecimento senão pela pena de quem injecta a sua análise, a sua curiosidade e ânsia de saber com uma dose saudável de dúvida e incerteza? Carlos Serra não dá certezas nesta obra porque ele sabe, como Bertrand Russel, o grande filósofo britânico, que o maior problema deste mundo são os ignorantes e fanáticos com as suas certezas. Carlos Serra sabe que não sabe, e por isso mesmo sabe muito.” in prefácio por Elísio Macamo